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sexta-feira, 10 de novembro de 2017

ESCORPIÕES E TRATAMENTO EM CASO DE ACIDENTES

Escorpiões são artrópodes (pernas articuladas) pertencentes à Classe Arachnida (por apresentar quatro pares de pernas) e Ordem Scorpiones, de distribuição geográfica bastante ampla, estando presentes em todos os continentes, exceto na Antártica. 

Atualmente ocorrem 19 famílias distribuídas em todo o mundo. 

Os gêneros que causam os mais graves acidentes são: Androctonus e Leiurus (África setentrional), Centruroides (México e Estados Unidos) e Tityus (América do Sul e Ilha de Trinidad). No Brasil ocorrem quatro das 19 famílias existentes, sendo que apenas a Família Buthidae, que contém as espécies do gênero Tityus, apresenta espécies de importância em saúde pública.

Acidente escorpiônico ou escorpionismo é o quadro de envenenamento provocado pela inoculação de veneno através de aparelho inoculador (ferrão ou télson) de escorpiões. De importância em saúde pública no Brasil são os representantes do gênero Tityus, com várias espécies descritas:

T. serrulatus (escorpião-amarelo): com ampla distribuição em todas as macrorregiões do país, exceto na região Norte e no estado do Rio Grande do Sul, representa a espécie de maior preocupação em função do maior potencial de gravidade do envenenamento e pela expansão em sua distribuição geográfica no país, facilitada por sua reprodução partenogenética e fácil adaptação ao meio urbano;




T. bahiensis (escorpião-marrom): encontrado na Bahia e regiões Centro-Oeste, Sudeste e Sul do Brasil;




T. stigmurus (escorpião-amarelo-do-nordeste): espécie mais comum do Nordeste, apresentando alguns registros nos estados do Paraná e Santa Catarina;




T. obscurus (escorpião-preto-da-amazônia): encontrado na região Norte e Mato Grosso.



De acordo com a distribuição das espécies de escorpiões encontradas no país, pode haver variação regional nas manifestações clínicas. Porém, de modo geral, o envenenamento escorpiônico determina alterações locais e sistêmicas, decorrentes da estimulação de terminações nervosas sensitivas, motoras e do sistema nervoso autônomo. A grande maioria dos acidentes é leve e o quadro local tem início precoce e duração limitada, no qual adultos apresentam dor imediata, eritema e edema leves, piloereção e sudorese localizadas, cujo tratamento é sintomático. Mioclonias e fasciculações são descritas em alguns acidentes por T. obscurus. Já crianças abaixo de 7 anos apresentam maior risco de alterações sistêmicas nas picadas por T. serrulatus, que podem levar a casos graves e requerem soroterapia específica em tempo adequado.


Aspectos clínicos

Dor local imediata e de intensidade variável, podendo irradiar-se até a raiz dos membros. Hiperemia e edema discreto, piloereção, sudorese e frialdade podem estar presentes no local ou em todo o membro atingido. Durante alguns dias pode permanecer no local da inoculação hiperestesia ou parestesia. De forma sistêmica pode ocorrer midríase, arritmia cardíaca, taquicardia, hipertensão arterial, edema agudo de pulmão, insuficiência cardíaca e choque. A descarga adrenérgica leva à hiperglicemia e leucocitose e contribui também para a hipopotassemia. A descarga colinérgica provoca miose, bradicardia, arritmias, hipotensão arterial, aumento das secreções lacrimal, nasal, salivar, pancreática, gástrica, brônquica, sudorípara, tremores, piloereção, espasmos musculares, contribuindo para o aumento da amilase sanguínea. Nos acidentes causados por T. obscurus têm sido relatados também quadros neurológicos com mioclonias, dismetria, disartria, ataxia, parestesias, hiperreflexia.

O tratamento, quando necessário, é feito com o soro antiescorpiônico (SAEsc) ou o soro antiaracnídico (Tityus, Phoneutria e Loxosceles - SAA).

Aspectos laboratoriais

Não existem exames laboratoriais para confirmação do diagnóstico.

Sangue: Hiperglicemia, leucocitose e hipopotassemia ocorrem precocemente após o acidente nos acidentes moderados e graves. Quando ocorre comprometimento cardíaco detecta-se aumento das enzimas (CK-MB, TGO, LDH e Troponina I, esta principalmente nos casos mais graves) nas dosagens seriadas. Geralmente observa-se distúrbio do equilíbrio ácido/básico do tipo misto, com acidose metabólica e alcalose respiratória, e nos casos mais graves acidose respiratória.

Urina: nos casos moderados e graves, glicosúria, às vezes, cetonúria.

Eletrocardiograma (ECG): As alterações mais encontradas são taquicardia ou bradicardia sinusal, extrassístoles ventriculares, distúrbios da repolarização ventricular como inversão da onda T em várias derivações, presença de ondas U proeminentes, alterações semelhantes às observadas no infarto agudo do miocárdio (presença de ondas Q e supra ou infradesnivelamento do segmento ST), marcapasso mutável, prolongamento de QT corrigido e bloqueio de condução diversa. Estas alterações são reversíveis dentro de 3 a 7 dias do acidente, dependendo da gravidade.

Radiografia de tórax: Pode evidenciar aumento da área cardíaca e sinais de edema pulmonar agudo (EPA), eventualmente unilateral.

Ecocardiografía (ECO): Tem demonstrado, nas formas graves, hipocinesia transitória do septo interventricular e da parede posterior do ventrículo esquerdo, diminuição da fração de ejeção, regurgitação da válvula mitral e dilatação de câmaras cardíacas.

Tomografia cerebral computadorizada: Pode ser útil na suspeita de acidente vascular cerebral ou outras complicações neurológicas.

Aspectos ambientais

A adaptação ao meio antrópico facilita a ocorrência maior desse tipo de acidente no meio urbano, vitimando fatalmente, na maioria dos casos, crianças. A forma mais adequada de se evitar o aparecimento de escorpiões nas residências é evitar o acúmulo de detritos no terreno, principalmente aqueles que possam atrair baratas, preservar seus inimigos naturais, como corujas, pequenos macacos, quatis, lagartos e sapos; e vedar frestas, vãos e ralos que permitam a entrada desses animais. O crescimento desordenado das cidades muitas vezes não é acompanhado por uma infraestrutura de saneamento, resultando em acúmulo de lixo e proliferação de baratas. Esses acabam atraindo escorpiões para dentro das residências, onde procuram abrigo e alimento, aumentando no número de acidentes.



NOTA INFORMATIVA - Alerta aos serviços de saúde e de vigilância das Secretarias Estaduais e Municipais de Saúde sobre os riscos de acidentes por animais peçonhentos nos meses de verão.

Fonte: Ministerio da Saude, Brasil.